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setembro 01, 2010

Heroína disfarçada.



Seus fios de cabelo com raízes esbranquiçadas, a pele clara com leves manchas, olhos fundos e olheiras, traços de cansaço representavam uma dura realidade. Com quase totalidade de sua idade dedicada ao trabalho, sua postura deixou de demonstrar força, e passou a representar o maltrato da vida. "Indefesa" é o adjetivo que passa pela mente ao cruzar o caminho dessa mulher. As palavras, que na maior parte do tempo são firmes em excesso, revelam o descontrole emocional que a abala -resultado, novamente, dos anos de trabalho. Sorrisos e risadas levemente envergonhadas deixam à mostra uma intimidade preservada e ingenuidade intacta de uma mulher formada que não teve infância. O olhar com o restante de um brilho ofuscado não passa despercebido; ali, uma guerreira é mantida em segredo. Armada com forças renovadas pela fé e protegida pelo peito que poucas vezes se vê estufado.



Moldada, julgada e judiada pela sociedade, "senhora" minha mãe mantém-se assim: preparada para qualquer guerra programada, ou inesperada. Uma heroína disfarçada.

abril 24, 2010

Have pride in who you are.


Eu sabia que já estava na hora de confessar meus desejos. Sabia que na verdade, já tinha passado dela. Estava sendo nada fácil ter de conviver com aquele segredo a tanto tempo - dois anos talvez. A briga, o reboliço, que causaria chegaria nem perto do que a que tive de enfrentar comigo mesma - o complexo de que era errado. Foi nesse momento de desespero para contar que tomei fôlego e sentei-me. Seu rosto me transmitia uma imagem de paz que logo, eu tinha certeza, mudaria. Os olhos me queimavam, eles me intimidavam, e quase eram o suficiente para me fazer desistir. Ergui minhas mãos com as palmas viradas em sua direção, como um gesto de quem pede calma em silêncio. Logo as abaixei novamente apoiando-as sobre minhas pernas. E então, comecei a falar.

- Por favor, apenas me ouça! Pode ser que isso derrube nossa família, pode até ser que isso te faça criar um tipo de desgosto por mim, mas eu preciso falar. Não posso mais guardar esse tipo de segredo com medo de ser rejeitada. Talvez eu nunca devesse ter assumido para mim mesma e de alguma forma ter aceitado, mas seria um erro imenso querer mudar meu gosto, meu instinto. É sim, já faz dois anos ou talvez mais. Eu gosto de mulheres! –Tomei um fôlego profundo, e logo continuei sem dar espaço para que me retrucasse. – É! De mulheres. Não, eu não gosto somente de mulheres, e nem tenho vontade de ter uma vida sexual com alguma (“pelo o menos não ainda”, pensei), e não significa que olho para todas que cruzam o meu caminho com desejo. Homens me atraem. E mulheres me fazem tão bem quanto eles. Já tive relações com algumas e, é claro, apenas elas sabem desses momentos. Apaixonei-me por uma, mas não deixei que o sentimento se alastrasse, porque eu já sabia que nunca poderia trazê-las para casa e apresentar para meus pais como minha namorada.

Deixei que um peso imenso caísse dos meus ombros e logo os deixei cair juntos. Minha coluna adquiriu um formato mais arredondado, e minha cabeça permitiu-me apenas olhar para o chão. Eu podia sentir uma reação igual a minha, talvez uma decepção ou um alívio por saber o que estava acontecendo. Insano.

Chacoalhei minha cabeça rapidamente, cerrei meus olhos com força e fixei em minha mente.
“Se não tem forças para admitir ao seu próprio reflexo sua bissexualidade, como poderá olhar aos que te amam e dizer? Pode ser fácil falar sem parar e sem ter alguém para responder-te. Mas a pressão para que mudes, para que desista e se convença de que é apenas um momento, será muito maior do que a que um espelho pode parecer causar. Seja forte!”

Levantei de minha cama e deixei que o espelho refletisse apenas o espaço vazio que ali ficou.

março 26, 2010

Estranha personalidade.


Amo o arrepio da brisa gelada na pele, mas odeio não ter alguém que o evite.

Não gosto de ser deixada falando sozinha, mas vivo o fazendo.

Falar comigo mesma em idiomas de autoria própria, aliás, me encantam, mas ter de interpretar dialetos alheios me cansam.

Preservo a calma e o silêncio, só que não me dê cinco minutos de poder que gritarei aos quatro cantos e ficarei vermelha de raiva.

Monotonia me corrói, entretanto mudanças são desprezadas por mim.

Tédio me dá dor de cabeça. E ter o que fazer, preguiça.

Não me toque”. “Me abrace!”.

Piadas bem elaboradas são fracas para o meu humor, e situações bobas me fazem cair na gargalhada.

Sou estressada e bem resolvida superficialmente, mas sou carente e ligeiramente perturbada.

Escrever alivia minha mente, mas ler a bloqueia.

Gosto de amar e ser amada, mas reciprocidade deixa minha vida chata.

Distância me incomoda por não poder ultrapassá-la na maioria das vezes, mas agradeço sua existência por me impedir de matar alguém parte do tempo.

A voz, o tom, as palavras ditas me roubam o coração, mas o silêncio é mais completo para mim.

Preciso de pessoas a minha volta dizendo minhas qualidades, mas minha auto crítica não me deixa vê-las e ouví-las.


Sou confusa e determinada. Quieta e agitada. Calma e hostil. Auto controle perfeito, e descontrolada. Educada e respondona. Falo baixo, mas grito. Preso palavreado culto e de baixo calão. Gosto de mimos e odeio grude.


Sou eu mesma e não sou.

março 21, 2010

Quinze Anos.


Aos 15 anos recém completados, eu consegui adaptar mais meus pensamentos. Tornando-os mais claros e completos, mas não menos confusos. Algumas vezes falhei, e outras tive sucesso. Tive sucesso quando tirei forças de um lugar que, pra mim, é desconhecido, e trouxe para o presente todas as decepções que estavam guardadas em um passado (não necessariamente distante). Falhei quando passei a viver essas decepções novamente, não levando em consideração toda a aprendizagem que tive em cada uma delas.

Quando eu fechava os olhos, tudo aparecia no escuro da minha mente ao mesmo tempo.Deixando-me confusa e sem capacidade para saber distinguir, relacionar e interpretar aquele amontoado de opiniões e decisões. Hoje, sei separar cada um no silêncio, sem precisar me pronunciar a outro alguém. Consigo ver tudo com mais clareza, de modo que não se tornem apenas angustias guardadas dentro de mim.

Aos 15 anos eu entendi que se alguém disser que me ama, eu vou acreditar. Considerei a hipótese de poder sonhar. Admiti que esperava por um príncipe encantado. Abri os olhos e me eduquei a viver aquilo que é motivo da minha respiração naquele instante. Eu vi que gostar de alguém pode me levar à exclusão só por amar diferente. Vi mais ainda. Vi que há pensamentos, gostos, atitudes e curiosidades, que não podem ser confessadas nem com amigos de longe prazo. Aprendi que as vezes ficar calada me torna uma poeta. E senti. Senti a excitação de estar mudando, crescendo e, acima de tudo, amadurecendo.

Claro que cada um tem seu momento de descoberta. E o meu foi aos 15 anos!

março 17, 2010

Não é o suficiente.


Lá estava ela novamente me fitando enquanto eu brincava com a comida do prato.
- O que é? -disse-lhe com a voz baixa mas em um tom agressivo.
- Você não se cansa de fingir que está comendo?
- Não devo comer. Só estou passando o tempo. -resolvi encará-la com um leve sorriso no rosto.
Cada centímetro de minha face era examinado em questão de segundos; eu podia sentir seu olhar me queimando. Era claro que seus pensamentos estavam a mil por hora formulando algo impactante. Furei o ovo cozido com o garfo e cortei-o em pequenos pedaços.
- Você não precisa desse tipo de loucura, está tudo em forma!
Respirei o mais fundo possível soltando os talheres, virei em sua direção com a palma das mãos sobre minhas coxas e penetrei em sua alma através dos olhos.
- Nunca será o suficiente para mim. -fiz questão de enfatizar a palavra "mim", ela precisava se dar conta de que a opinião dela não me importava. Não naquele instante e para este assunto.
- Vai acabar morrendo... -cada palavra sua foi dita em tom descrescente.
Retruquei-lhe sem pensar.
- A questão é: eu tenho medo disso?

março 16, 2010

Inferno Particular.


Deitei-me em minha cama para ocupar minha mente com uma boa leitura. Em vão. Cada palavra me levava de alguma forma para cálculos. Decidi então mudar de estratégia, peguei exercícios de física para fazer; substituir os números de uma conta me parecia uma boa solução. Em vão novamente. Com a ponta dos dedos da mão esquerda empurrei todos os cadernos, livros, canetas, tudo, para o canto da cama até que caíssem no chão. Agarrei minha pequena e murcha estrela amarela e fiquei a olhar para a janela aberta que mais se parecia com um quadro, devido a lua que a iluminava de longe. Bem visível, clara, limpa. O vento gelado alcançava os dedos dos meus pés antes que qualquer outra parte do meu corpo, entretanto já era o bastante para me fazer sentir calafrios seguidos.


"Duzentos e noventa e sete.", pensei. Inúmeros planos para perder esse número passaram pela minha cabeça. Sessenta. Sessenta minutos de esteira. Cento e oitenta. Cento e oitenta abdominais. Três. Três litros d'água por dia. Zero. Duzentos e noventa e sete era a quantidade de calorias consumidas, era a quantidade de calorias não gastas. ”Uma banana-prata de oitenta e nove calorias, mais duas xícaras de café com cinquenta e duas calorias, mais dois ovos cozidos de cento e cinquenta e seis calorias.”, calculei. ”É. Duzentos e noventa e sete.”, conclui.


Levantei-me rapidamente deixando minha pequena estrela cair e arranquei minha roupa com força ficando apenas com as peças íntimas. Analisei-me de frente ao espelho, passando as mãos por cada curva que me compõe. Borboletas no estômago. Fixei meus olhos apenas nos pontos positivos. Os ossos do meu colo pareciam gritar de tão formosos que estavam aparecendo pela pele. O do quadril apenas insinuava uma aparição, nada demais. Meus pulsos eram a parte mais fina dos braços, os ossinhos saltados e bem visíveis me causaram um sorriso largo espontâneo. ”Duzentos e noventa e sete.”, fui pega de surpresa. Novamente esse número me perturbou.


Não me preocupei em vestir-me, me abaixei e peguei novamente minha estrela murcha, deitei em minha cama encolhida puxando o cobertor com os pés de uma maneira habilidosa pelo costume de fazê-lo. E deixei que os números me dominassem sem dó. ”Zero calorias. Cento e vinte horas. Cem vezes mais feliz (...)”.