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setembro 24, 2010

Aquática.

Oxigênio limitado.
Total controle em minhas mãos.
Lucidez suicida.
Meu corpo flutua na superfície da água,
Braços e pernas movimentam-se em sintonia
E fazem com que eu saia do lugar;
Sempre para frente, em um ritmo determinado por mim.
Por minha força e desejo.
O silêncio gritante, que me é proporcionado quando submersa, fascina.
O pouco que resta de ar é solto por entre os lábios,
E logo se transforma em pequenas bolhas que rapidamente ecoam.
Preciso respirar, mas não quero.
Pois sei que ao levantar a cabeça para fora,
Todo o exterior me invadirá com ruídos torturantes da minha realidade;
Serei retirada do sufoco delicioso de estar resistindo à ausência de livre 02.
Mas o faço o mais rápido possível e que consigo.
É obrigatório!
Logo volto ao meu estado imortal,
Movendo-me às custas do meu prazer,
Da minha paz.

junho 15, 2010

Criatura divina.



Enquanto deliciava-se de algo semelhante a um pedaço qualquer de carne crua, encostado na quina do encontro entre duas paredes, com suas pernas bem encolhidas - como todo o corpo, deixava que o vento gelado do dia nublado movimentasse seus fios negros de cabelo. Aproximei-me agarrada nas mangas de minha blusa pouco fina.
- Será que eu posso?
Ele deu de ombros.
Deixei meu corpo cair no concreto pintado de cor branca e, de costas, escorreguei o corpo para o chão, ajeitando-me aos poucos ao lado daquele ser. Sua aparência perfeitamente assimétrica tinha total controle sobre meus olhos; era nada comum, diferente de tudo o que eu já havia visto. Repulsivo. Encantador! A paz que dava de apenas fitar aquelas imperfeições me trouxe dúvidas aparentemente sem respostas. Separei meus lábios, cheguei a pegar fôlego para bombardeá-lo com todas as minhas questões, mas logo juntei-os novamente envergonhada.
- Como ousa?
- Perdão?
- Não tem medo de mim?
- Por que o teria?
- Olhe bem! -Agarrou-se ao pedaço de carne crua como se estivesse aquecendo uma criança nua.
- Não entendi.
- Eu posso te fazer feliz. Eu posso te destruir, fazê-la erguer novamente. Sou capaz de te fazer guerrear consigo mesma, tenho o dom de trazer paz nos momentos mais absurdos. Sou poderoso, criança. Comigo você não vai conseguir fechar os olhos para dormir com medo de eu te deixar, ou até mesmo por que estará fazendo orações para que eu vá embora. Nunca mais terá tanta racionalidade, tomarei conta de tudo, comandarei cada passo e pensamento seu. Suas risadas serão somente as mais sinceras ao meu lado, e suas lágrimas se tornarão cada vez mais presentes por tudo o que trarei comigo. Sou um pacote!!
Seu tom baixo, sua voz inacreditavelmente doce chegava aos meus ouvidos como uma verdadeira e bem feita canção de ninar. Cerrei meus olhos, deixei que, como ele havia feito, o vento movimentasse meus fios de cabelo. Meus lábios sorriram sem o meu comando, senti meu coração palpitar silenciosamente no ritmo da tranqüilidade que acabava de se acomodar.
Saí do meu estado de êxtase. Voltei a fitá-lo com desejo. Encantou-me completamente. Segurou o pouco que restava de seu alimento com a mão mais distante de mim, e com a outra fez pressão sobre meu peito; sobre meu coração.
- É disso que eu me alimento!
- Tudo bem.
- Ainda assim não tem medo?
- Eu preciso da sua presença na minha vida. Preciso dessa insanidade. Minha vida só terá sentido quando não tiver sentido algum pela minha luta.
- Mas muito provavelmente irei feri-la.
- Você está pedindo licença para entrar na minha vida?
- Não! Nunca faço isso. Eu já sei que já estou no controle.
Senti um breve calafrio levantar meus pêlos cobertos pelo tecido grosso de minha blusa enquanto ele afastava sua mão do meu corpo.
- Posso ao menos saber o seu nome?
- Amor. Este é o meu nome: Amor!

maio 13, 2010

Manual de Instruções.


Ela adentrou a sala com seu material envolvido pelos braços. Os ombros estavam semi erguidos, como se naquela posição aclamasse por proteção. Conforme se aproximava, a maneira como estava vestida chamava mais atenção -rasteirinhas de bolinhas com um pequeno laço nas tiras que enfeitava seu peito dos pés, calça jeans um tanto justa que delineava suas pernas, e uma fina blusa clara em formato de jaleco. Sua estatura mediana e seus poucos quilos passavam uma imagem de bondade, sobre sua mente, porém, não se pode afirmar com tanta certeza. Discursos com data de validade passada provaram que ali estava uma garota leal ao manual de instruções; Como ser uma princesa.


Nada com nada. Princesas defendem o planeta, usam canetas coloridas, falam calmamente -sempre com uma postura encolhida. Não falam palavrão, defendem o ser homem. Entendem os animais. Acreditam em duendes, tem amigas fadas. Tem letra arredondada, desenhos caprichados. Sua voz fina e de baixo tom representa sua delicadeza, e se complementa com a sutileza do andar. Elas se vestem bem, escovam os fios de cabelo com perfeição, se maquiam para onde quer que vão. As princesas são indefesas, e visivelmente, facilmente, admiradas.


É fácil en(ganar)cantar. Vamos ser uma princesa hoje?

maio 06, 2010

“Sou brasileiro e desisto nunca!”


Ah! Qual é? Qual o orgulho que a sua (nossa) nacionalidade dá? Futebol? Que é marcado por guerra ininterruptas de torcidas “organizadas”, e pelo os melhores jogadores caírem fora do país na primeira, no máximo segunda, chance. Carnaval? Que caracteriza muito a vida cotidiana do país, certo? Festas, bunda de fora, e tudo mais. Povo caloroso? O que, convenhamos, só vemos que essa paixão existe quando é um artista, seja ele de qual área for, que está diante das pessoas, porque quando é um morto de fome caído pelo chão sem ter sequer onde se deitar, nenhuma paixão é visível ali. “O cara!”, segundo Barack Obama? Nosso querido Presidente te dá orgulho de ser brasileiro? Ok, reconheçamos que para quem é semi-analfabeto, que começou como torneiro mecânico, e hoje estar na Presidência da República de um país do porte que o Brasil é (e quando digo “porte” quero dizer pela imensidão do território e número de população), a luta foi grande e nada fácil. Porém, sabe você que no Governo Lula há mais de cem casos de escândalos? Os quais, é claro, ele não sabia.


Vamos lá, 2010 é ano de novas eleições. Além do presidente da República, também serão eleitos governadores, senadores e deputados federais, estaduais e distrital. Sendo que:

Presidente da República – quatro anos no governo.

Senador – oito anos.

Deputados – quatro anos.

Ignorando as reeleições, já é um bom tempo! Sim, é claro, não deixo de lado o fato de que com a quantidade de coisa a ser feita, o tempo vira curto, no entanto, é o suficiente para fazer um enorme estrago também. Por isso, a única maneira de podermos corrigir o país, ter orgulho de onde vivemos (e não, não estou falando das praias e nem nada disso!), o primeiro passo a ser dado é do povo. Sim, do povo. Este mesmo que elege os carrascos para o poder e que depois reclamam. Um voto com sabedoria, e com o mínimo de consciência, pode mudar tudo. Não adianta pensar que “as crianças são o futuro do Brasil”, sendo que a cada mês as coisas pioram duas, três vezes mais. É uma bola de neve que nunca para de rodar, de crescer.


Candidatos à Presidência da República:

Dilma Rousseff (PT),

Ciro Gomes (PSB-CE)

José Serra (PSDB)

Aécio Neves (PSDB)

Marina Silva (AC) -deve ser a candidata pelo Partido Verde-.


Para que o título deste Post tenha sentido, é necessário ter uma motivação.

E o Brasil não tem mais isso!

abril 29, 2010

Eu conheci.


A primeira vez que o vi, eu assustei até demais. Jamais poderia crer que um dia aquilo aconteceria, nem nunca imaginei que era algo visível. Na realidade, sempre duvidei da existência.

Meu anjo da guarda estava sobre o meu corpo, me fitava com um sorriso largo em sua face. E sua aparência era típica de contos infantis, cachinhos dourados, olhos claros, pele branca, bem branca. Estava vestido com apenas uma peça de roupa, algo largo e de cor clara, um tecido semelhante a seda. Ainda não tenho certeza se é um garoto ou uma garota, e para falar a verdade, sei nem se tem essa diferenciação. Seus dentes perfeitos que montavam seu sorriso me conquistavam e me faziam sorrir também. A sensação plena de paz que tomou conta do meu corpo me fez estremecer, mas com a certeza de que era por algo bom. Mesmo um pouco distante, pude enxergar seus lábios se mexerem e como mágica, fui presenteada com um “bom dia!” em um tom doce no pé do ouvido.

Desde então, minhas manhãs são iniciadas e tranquilizadas assim, com um lindo pequeno garoto, ou garota, me desejando bom dia antes mesmo de eu me levantar.

abril 24, 2010

Have pride in who you are.


Eu sabia que já estava na hora de confessar meus desejos. Sabia que na verdade, já tinha passado dela. Estava sendo nada fácil ter de conviver com aquele segredo a tanto tempo - dois anos talvez. A briga, o reboliço, que causaria chegaria nem perto do que a que tive de enfrentar comigo mesma - o complexo de que era errado. Foi nesse momento de desespero para contar que tomei fôlego e sentei-me. Seu rosto me transmitia uma imagem de paz que logo, eu tinha certeza, mudaria. Os olhos me queimavam, eles me intimidavam, e quase eram o suficiente para me fazer desistir. Ergui minhas mãos com as palmas viradas em sua direção, como um gesto de quem pede calma em silêncio. Logo as abaixei novamente apoiando-as sobre minhas pernas. E então, comecei a falar.

- Por favor, apenas me ouça! Pode ser que isso derrube nossa família, pode até ser que isso te faça criar um tipo de desgosto por mim, mas eu preciso falar. Não posso mais guardar esse tipo de segredo com medo de ser rejeitada. Talvez eu nunca devesse ter assumido para mim mesma e de alguma forma ter aceitado, mas seria um erro imenso querer mudar meu gosto, meu instinto. É sim, já faz dois anos ou talvez mais. Eu gosto de mulheres! –Tomei um fôlego profundo, e logo continuei sem dar espaço para que me retrucasse. – É! De mulheres. Não, eu não gosto somente de mulheres, e nem tenho vontade de ter uma vida sexual com alguma (“pelo o menos não ainda”, pensei), e não significa que olho para todas que cruzam o meu caminho com desejo. Homens me atraem. E mulheres me fazem tão bem quanto eles. Já tive relações com algumas e, é claro, apenas elas sabem desses momentos. Apaixonei-me por uma, mas não deixei que o sentimento se alastrasse, porque eu já sabia que nunca poderia trazê-las para casa e apresentar para meus pais como minha namorada.

Deixei que um peso imenso caísse dos meus ombros e logo os deixei cair juntos. Minha coluna adquiriu um formato mais arredondado, e minha cabeça permitiu-me apenas olhar para o chão. Eu podia sentir uma reação igual a minha, talvez uma decepção ou um alívio por saber o que estava acontecendo. Insano.

Chacoalhei minha cabeça rapidamente, cerrei meus olhos com força e fixei em minha mente.
“Se não tem forças para admitir ao seu próprio reflexo sua bissexualidade, como poderá olhar aos que te amam e dizer? Pode ser fácil falar sem parar e sem ter alguém para responder-te. Mas a pressão para que mudes, para que desista e se convença de que é apenas um momento, será muito maior do que a que um espelho pode parecer causar. Seja forte!”

Levantei de minha cama e deixei que o espelho refletisse apenas o espaço vazio que ali ficou.

abril 17, 2010

Veja bem...


Não olhe nos meus olhos tentando encontrar alguma alma,
porque não encontrará!
Não procure sentimentos no meu coração,
porque não achará!
Me falta uma parte, a qual talvez eu nunca mais terei de volta.
Me faltam pedaços que trariam verdades
e que justificariam todas as minhas revoltas.

Não adianta tentar encontrar em mim vestígios de sentimentos,
ou uma alma livre com esperanças.
Enfrente somente minhas atitudes,
pois elas revelarão meias ideias, alguns pensamentos,
parte das lembranças.

E a partir disso, você saberá quem sou.
Me conhecerá ao meio, na verdade,
porque sequer inteira estou.

março 26, 2010

Estranha personalidade.


Amo o arrepio da brisa gelada na pele, mas odeio não ter alguém que o evite.

Não gosto de ser deixada falando sozinha, mas vivo o fazendo.

Falar comigo mesma em idiomas de autoria própria, aliás, me encantam, mas ter de interpretar dialetos alheios me cansam.

Preservo a calma e o silêncio, só que não me dê cinco minutos de poder que gritarei aos quatro cantos e ficarei vermelha de raiva.

Monotonia me corrói, entretanto mudanças são desprezadas por mim.

Tédio me dá dor de cabeça. E ter o que fazer, preguiça.

Não me toque”. “Me abrace!”.

Piadas bem elaboradas são fracas para o meu humor, e situações bobas me fazem cair na gargalhada.

Sou estressada e bem resolvida superficialmente, mas sou carente e ligeiramente perturbada.

Escrever alivia minha mente, mas ler a bloqueia.

Gosto de amar e ser amada, mas reciprocidade deixa minha vida chata.

Distância me incomoda por não poder ultrapassá-la na maioria das vezes, mas agradeço sua existência por me impedir de matar alguém parte do tempo.

A voz, o tom, as palavras ditas me roubam o coração, mas o silêncio é mais completo para mim.

Preciso de pessoas a minha volta dizendo minhas qualidades, mas minha auto crítica não me deixa vê-las e ouví-las.


Sou confusa e determinada. Quieta e agitada. Calma e hostil. Auto controle perfeito, e descontrolada. Educada e respondona. Falo baixo, mas grito. Preso palavreado culto e de baixo calão. Gosto de mimos e odeio grude.


Sou eu mesma e não sou.

março 11, 2010

Tornei-me poliglota.‏


Desde o dia em que tive a loucura de ousar a conhecê-lo, eu tinha certeza de que não seria apenas mais um contato. Na realidade, havia só uma coisa em mente: fazer parte da vida dele em algum momento. Como uma boa geminiana -orgulhosa e impulsiva, não hesitei em passar por cima dos meus princípios para conseguir concretizar meu plano mirabolante.

Por fazer parte de uma banda, ser um rapaz bonito, no auge dos seus vinte e um anos, era óbvio que meu caminho seria longo e cheio de obstáculos bem difíceis.

Tava na semana do fim do ano, então o assunto que nos cercava era bem previsível. Festas. Conseguia sem dificuldade prendê-lo com minhas palavras quase sinceras que ofuscavam interesses maiores -e é claro, minha inexperiência.
Não demorou muito para seus grandes olhos azuis cor do céu aumentassem diante da minha falsa imagem que comecei a passar. Com os dias, deixei escapar leves demonstrações de intenções, as quais -como um garanhão nato, nunca deixaria passar despercebido. Caiu na isca.

O que eu não sabia -ou fingia não saber, era que aquela minha nova aventura se tornara para ele uma grande oportunidade, um desejo ardente. Embora eu soubesse que eu estava prestes a aprender um novo idioma, não hesitei em encontrá-lo. Tampouco hesitei de seguir o destino que ele próprio havia traçado. O caminho não foi curto -muito menos confortável, já que ele fazia questão de falar sem parar sobre sua vida (mas nunca falando como homem, mas sim como o fulano que toca na banda). Por vezes tentei pedir para que eu não fosse confundida com uma fã, mas minha voz recusava-se a sair quando seus olhos vinham de encontro aos meus.
Chegamos ao lugar que eu nunca havia entrado, e então me dei conta de que ele estava decidido a ser meu professor naquele dia.

Deixei a onda de realização me invadir de uma vez só, e não permiti que seus lábios me intimidassem sempre que se aproximavam. Eu senti cada dedo de suas mãos dançando pela minha pele, e o toque fazia uma combinação perfeita com a pressão que seu corpo fazia de leve contra o meu. Aos poucos eu me acostumei com a nova língua que ele me ensinava de olhos fechados. Consegui esquecer do mundo -assim como ele havia prometido. E só voltei à lucidez com a água fria do chuveiro que caía como flocos de neve sobre nossos corpos. Vergonha.

Existiu mais carinho, preocupação e paciência, do que imaginava que ele seria capaz de ter. Algumas vezes ele passava sua mão sobre a minha e tentava segurá-la, mas de uma maneira hostil ele logo a soltava -assim como uma pessoa em dieta pegando um doce no armário. Eu acabava entendo, no entanto ficava com vontade de agarrá-la de volta -assim como uma pessoa em dieta encarando um doce no armário.

O caminho de volta foi menos longo do que o de ida. Entretanto, sua voz soava mais íntima, e suas paradas para respirar me permitiam soltar algumas palavras intimidadas. Havia uma ligação no ar, nossos olhares por vezes se encontraram, e como uma consequência gostosa sorrisos surgiam. Por fim, em algumas frases soltas eu encontrava o homem que eu queria.

Ao chegarmos no local de início, dentro do carro nos permitimos uns segundos em silêncio. Olhos nos olhos, lábios nos lábios. Foi agradável e pessoal.

Eu não tinha a capacidade de pensar em mais nada, além de que eu havia me tornado uma poliglota.